pergunto-me, amiúde, como sentiria deus todos os silêncios que habitam a minha pele…
e que respostas teria para cada uma das palavras caladas, na imensidão das dúvidas.
Queria habitar o vazio poder tocar os teus lábios com o olhar e pertencer, por instantes, ao silêncio que explica a existência de deus. Sei que o amor se encontra nesses espaços esquecidos onde apenas o toque nos pode guiar. Queria saborear cada segredo inscrito na tua pele e dizer-te que debaixo da minha pele existe um sentir que me obriga a desviar o olhar. Sei que terei que esperar… ainda é cedo.
Olho à minha volta e sinto um mistério por detrás de tudo o que habita o universo. Sinto a curiosidade de perceber esses mistérios e apreender o maravilhoso mundo que os encerra. Como será que deus lê a existência humana? Como será que deus interpreta a vida que existe em cada ser vivo? Imagino-o sentado, na soleira da porta, a ler baixinho a nossa existência, com um sorriso a fugir-lhe dos lábios e o coração a transbordar de amor... Como um adulto que aprecia as traquinices ternurentas de uma criança. Nestas alturas, olho à minha volta e aprecio os seres que me rodeiam. Fascina-me a convicção com que existem. A capacidade de seguirem o seu caminho, serenamente, como se soubessem sempre para onde vão. E perante a acção do homem, não lutam. Recomeçam, tranquilamente... como se aceitassem, sem questionar, o que a vida lhes dá... Queria aprender a Ler tudo o que existe...
“Um encontro a dois: olhos nos olhos, face a face e quando estiveres perto, arrancar-te-ei os teus olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus; e arrancarei os meus olhos para colocá-los no lugar dos teus; então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus” (J.L. Moreno) e talvez, assim, possamos chamar a esse momento um Encontro a dois.
E hoje, no meio de um labirinto de sentires inaudíveis onde a expressão não se sabia fazer visível, desejei poder arrancar o teu coração e colocá-lo no lugar do meu, e arrancar o meu coração e colocá-lo no lugar do teu, e por momentos, como por magia, sentirias o meu sentir e eu sentiria o teu.
Talvez seja este o silêncio a que deus chama amor…
Talvez, se eu habitar o teu corpo e tu habitares o meu, possamos tocar o sentir de deus...
Às vezes sinto que Deus perdeu volume… passou a deus. Como se para habitar o planeta Ele precisasse Ser um pouquinho menos. Não tão divino, se me entendem. E pergunto-me se essa perda, de volume, lhe permite sentir menos, ou diferente, ou se lhe permite sentir; ou se muda o sentir. Como será sentir a vida na pele de deus? E na pele de Deus? Por coerência, de sentires, questiono, primeiro, o sentir de deus. E procuro, no vazio de cada respiração, a essência desse sentir que só um deus ousa experimentar. A que sabe a manga na boca de deus? Que cor habita o céu aos olhos de deus? Como será o teu toque sentido por deus?